Thursday, July 12, 2012

Japoneses e Nisseis no comercio de Marília



da esq. p'ra dir.: Nery Porchia e os irmãos Milton, Oswaldo e Cleide Nakamura. As botas tipo sanfona genuinas, feitas pelo meu tio.

Vamos lembrar de alguma coisa da década de 50, como o primeiro distribuidor de água mineral, o Ishii San, com seu caminhãozinho Ford 38 com carroceria aberta e inclinada para segurar os engradados de garrafão. 

Ali, na Rua São Luiz os comerciantes da Casa Ono, Nishikawa e Ono; da Farmácia Paulista, Sussumu Nakamura; a Oficina do Tokuo (Paulo) Mishishita; a Pensão Mampei; o Bazar OK, do Keigo Okada; a Farmácia do Okagawa; o Bazar do Okamoto, com as filhas jovens - irmãs Tetsuo, ali atendendo; a Casa Okamoto de secos & molhados; a cerealista Ihara; a sapataria da família da Fumie; a 'Tartaruga' do Umeda; a farmacia do Oshiro. E tantos outros que marcaram o comércio mariliense em plena efervescência.

Vamos relembrar já dos jovens que deram a Marilia grandes alegrias em diversos setores. Claro, iniciando com a natação, o Tetsuo Okamoto, primeiro medalhista em Olimpíada e participante do primeiro Jogos Pan-americanos de Buenos Aires, que tinha como companheiro de equipe de revezamento o Hiroiko Sawao. Akira Nakadaira, Macoto Umeda e as jovens Flora Umeda, Neide Nakamura.

Quem não se lembra do Hideya Nakano, imigrante que se nacionalizou, e trabalhando na oficina do seu pai na XV de novembro, estudou, foi auto-didata, fez o Curso Normal (meu colega de turma), e se tornou cientista na USP e criador dos kits Einstein da Abril.

Depoimento de Ney Porchia sobre vários nisseis marilienses conhecidos no comércio.


BATIZADO DE NELSON & GLORIA MITISHITA


Sentados da esq. p'ra dir.: Paulo Mitishita; pai de Nery Porchia segura o Nelson; a mãe de Nery segura Gloria; Alzira Mitishita, a mãe das crianças. Atrás, em pé, estão:  mãe e pai de Paulo Mitishita, pioneiros que chegaram no Sacato Maru. Newton Porchia, irmão de Nery está na foto também. 
Quitanda do sr. Shimabukuro na Avenida República, perto do Parque Infantil Monteiro Lobato.
Banca do sr. Shimabukuro no Mercado Municipal da rua XV de Novembro.
Hotel Osaka na rua São Luiz em foto publicada na revista norte-american 'Life'.
Casa Progresso na Avenida Sampaio Vidal.
Depósito de alogodão Shuitiro Oki & Cia. - 1930s.
Depósito de algodão na Avenida Sampaio Vidal - 1950s
Farmácia Noturna, famosa na região, pois nunca fechava suas portas, atendendo a qualquer emergência.
Hiderahu Okagawa, também conhecido como sr. Antonio da Farmácia, nasceu em Kumatoken, no Japão em 12 de fevereiro de 1906; mudou-se para Marília em 1º Setembro 1939. Faleceu em Marília em 5 de Setembro de 1990, de derrame cerebral.

Imigração Japonesa  
Rua São Luiz dos anos 1940s
artigo escrito por Nery Porchia em 28 Abril 2013.

É um fato incontestável a influência japonesa no desenvolvimento de Marilia, pois como se lembram os primeiros imigrantes que aqui chegaram já vieram direcionados para a lavoura.

Para esses imigrantes o Brasil representava o Eldorado, e, particularmente Marilia se beneficiou dessa vontade férrea e disciplina que trouxeram. Da lavoura, pouco tempo depois já estavam também se estabelecendo no comércio, pois sentiram que os mais antigos e os novos imigrantes queriam ter uma continuidade da sua cultura do país de 'gaijins'.

Principalmente a Rua São Luiz parecia uma rua de suburbio de Tokyo. Lojas, bares, pensões, tinham placas como era costume da época, e todas grafadas com caracteres da língua japonesa. Está gravada na minha memória principalmente o trecho entre as Ruas Paes Leme e José de Anchieta. Eu morei no quarteirão da Campos Sales até a Arco Verde, onde meu pai tinha sua selaria e sapataria. Tinha os “estrangeiros” Rosseto, Zambom, Porchia e Turibio, descendentes de italianos, Mattar, descendentes de sírios, Dantas, o Pernambuco.

No mais, japoneses com ramos variados de comércio. Muitos marilienses ainda devem se lembrar do panorama das ruas nas décadas de 30 e 40, principalmente antes da entrada do Brasil na Guerra contra o Eixo, a II Guerra Mundial. O Eixo era formado pela Alemanha, Itália e Japão.

De um lado, na esquina, Casa Ono, de Nishikawa & Ono, uma frutaria, um bar e o restarurante, de japoneses, Casa Brasitalia, dos Irmãos Rosseto, outra frutaria de japoneses, Bar do Pernambuco, outro bar de japonês.

Do outro lado, na esquina a Casa 3 Irmãos, de Feres Mattar & Irmãos, Farmácia Paulista do Nakamura, Casa de Móveis do Zambom, a Sapataria Brasileira do Luiz Porchia, 'A Tartaruga' do Umeda, 'Farmácia Brasil' de outro japonês, o Bazar OK, de Keijo Okada, e o Posto do Rafael Turíbio. O Ishibashi San, que ainda está com alfaiataria ali na Campos Sales, ao lado havia uma tinturaria, e talvez ele ainda se lembre que japoneses mais idosos iam jogar naquele tabuleiro que lembra o jogo de damas.   
                
Japão derrotado na II Guerra Mundial

Nessa época eu morava numa casa nos fundos da '3 Irmãos', e o portão era bem em frente à Alfaiataria. A memória está um pouco obscura, mas tenho a vaga lembrança de uma morte alí em frente, não lembro se harakiri ou crime, mas está claro que foi por causa da Guerra, após a rendição do Japão.

Foram anos difícieis para os japoneses e seus descendentes, quase sempre perseguidos por policiais inescrupulosos. Na minha casa mesmo, foram guardados diversos aparelhos de rádio, vitrolas. Interessante é que tanto os policiais quanto os ideologistas que acreditaram na invencibilidade do Japão, os Katijumis, perseguiam os que possuíam rádio mais potente. Os primeiros, para evitar que fossem captadas transmissões clandestinas, e os segundos para que os japoneses não soubessem da dura realidade: a derrota do Japão. O principal motivo de desilusão com a derrota era quebra do mito da invencibilidade do Imperador pela sua natureza de divindade.

Voltando à Rua São Luiz, nos quarteirões acima, da Rua Campos Sales, encontrávamos a Casa Okamoto, secos e molhados, a Pensão Mampei, o Bazar Tókio, a Fumi, Pastelaria, a Farmacia São Luiz, do Oshiro.

Uma verdade precisa ser dita – a importância dos imigrantes e seus descendentes no progresso e desenvolvimento da nossa cidade e da Região. Trabalhadores, no batente de sol a sol, transformaram a agricultura da cidade, tornaram produtivas terras até então desprezadas. No comércio fincaram suas raízes para seus descendentes terem a oportunidade de deixar o plantio, vindo para a cidade.

Tinha também o Ishii-San que nos seu pequeno sítio na Vila São Miguel descobrira uma mina d’água, e passou a vendê-la em garrafões, entregando em domicílio, nos seu caminhãozinho Ford 1936, com a carroceria adaptada para os engradados não escorregarem para fora e caírem no chão.
Não era apenas a Rua São Luiz que concentrava comerciantes japoneses, também se estabeleceram na Coronel Galdino, pois essas duas ruas haviam os pontos de parada das jardineiras que vinham da zona rural.

Apenas a lamentar o terrorismo espalhado após o fim da II grande Guerra, com a derrota do Eixo, os mais fanáticos não admitiam a derrota do Japão, e, dentre outras facções, predominou a Shindo Remei que provocava temor naqueles que aceitavam como fato consumado a derrota do Imperador. Eu mesmo, se não cheguei a presenciar, mas pelo alarido provocado pelo suicídio – harakiri – de um fanático, assisti o socorro prestado a um fanático que praticou o harakiri na Rua Campos Sales, quase esquina da S.Luiz, do lado contrário ao portão da minha casa.

O tempo, no entanto, é senhor da verdade, e com passar dos anos os mais renitentes reconheceram que o Imperador não tinha a divindade que imaginavam e, como ser humano, sujeito a vitórias e derrotas. O nosso respeito aos irmãos marilienses de origem nipônica, que formam ao lado de outras colônias a base de sustentação econômica da nossa Marília.


Nery Porchia é colaborador do Correio Mariliense, escrevendo a coluna “Memórias” aos domingos – neryaporchia@terra.com.br

2 comments:

  1. Carlus, disponha sempre. Tenho mais textos sobre a vida dos japoneses no início de Marilia.

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  2. caro Nery Porchia, obrigado pela ajuda. Sim, estou interessado em outros textos sobre os principais cidadãos da comunidade japonesa de Marília.

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